Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na França. Estudou na Universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de trinta anos. Seus livros são considerados clássicos modernos na França. Em 2022, Ernaux recebeu o prêmio Nobel de literatura pelo conjunto de sua obra.
Com a linguagem cortante e desprovida de sentimentalismos pela qual ficou conhecida, Annie Ernaux inicia mais um capítulo do seu projeto literário, dedicado a investigar a própria existência em sua dimensão social. Ao se debruçar sobre um episódio de violência doméstica do pai contra a mãe quando tinha doze anos, a escritora põe em curso o doloroso processo de rememoração de uma experiência traumática.
A autora reconstrói a vida na cidade de Y., na França, o ambiente escolar, os usos e costumes de sua classe social, assim como relembra o papel da religião em sua família. Como de costume, ela entremeia a narrativa factual a reflexões sobre a escrita e o ato de traduzir em palavras um trauma que jamais ousara acessar. A vergonha, inicialmente restrita à violência testemunhada dentro de casa, se transforma em vergonha da classe e do papel que ocupa no jogo social.